quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cidade feita de espectros

À noite, é mais difícil, porque tenho os olhos descobertos. De dia, os óculos escuros escondem dos outros a solidão de quem não quer mostrar-se incomodado com ela.

A minha Lisboa está cada vez mais cheia de fantasmas. Substituem-se uns aos outros, há um espectro em cada rua da cidade, sinto cravados na nuca os olhos de quem eu queria que me olhasse de frente. E, invariavelmente, quando me viro, não está lá ninguém.

Continuo a procurar-te nos rostos e nos corpos de estranhos, que se tornam familiares pelas parecenças contigo que neles invento. É um fenómeno que se repete, não há nada a fazer, estás em toda a parte. Como uma gripe, resta-me esperar que passe.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Brumas e vinho tinto

Despeço-me de Lisboa na bruma das janelas de palácio das arábias que vestem de transparência a Estação do Rossio. O Castelo mantém-se vigilante sobre uma Graça já adormecida, na névoa da noite que esconde histórias de quem ainda não dorme.

Fiquei hoje a conhecer o bar Le Marais, em Santa Catarina, um cheirinho a Paris com um toque de Londres no mais antigo de Lisboa. Sinto ainda na boca aquele irrecusável vinho tinto, que se mistura na língua com o à-vontade de quem chega a casa, num conforto de olhos semi-cerrados e narinas infladas de prazer. O espaço pede horas de tempo para estar, gentes de outras terras e partilhas de novos mundos. O sofá em que me instalo rapidamente se torna numa segunda pele que não apetecerá despir, uma camada de carícias sobre as palavras trocadas naquela sala quase vazia de outras vozes.

A ebriedade das nuvens que cobrem o Cristo Rei e calcam os diamantes da ponte acompanha-me Lisboa fora, numa distância que se sabe curta no espaço e no tempo. Amanhã, serei tua outra vez.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Que noite quente a de hoje

As sombras passeiam-se nas fachadas do Rossio, janelas teimosas de águas-furtadas que espreitam a praça, no piscar de olhos mais delicioso da arquitectura de Lisboa. A praça está cheia de gente numa noite tórrida do Verão que ainda não veio. Do espectáculo de abertura das Festas de Lisboa só vi rasgos, luzes soltas, cores dispersas. Liberta, andei pela cidade que me ama, de pessoas juntas na alegria de quem vive realmente. E nisto, faltam seis minutos para o comboio. Pego nas pernas e num pulo chego à Estação do Rossio, onde todas as noites desfaço o abraço que me une à alma lisboeta.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Café Thé & Chocolat

Nas Amoreiras, bebendo um chá de erva príncipe, acompanhado de uma fatia daquele que, na minha opinião, é, de facto e apesar de não ter marca registada, o melhor bolo de chocolate do mundo. Com vista para o balcão dos bombons que, empilhados por tons e feitios em pequenas pirâmides de cor e gulodice, adoçam o olhar que se afunda em delícias de chocolate.