Despeço-me de Lisboa na bruma das janelas de palácio das arábias que vestem de transparência a Estação do Rossio. O Castelo mantém-se vigilante sobre uma Graça já adormecida, na névoa da noite que esconde histórias de quem ainda não dorme.
Fiquei hoje a conhecer o bar Le Marais, em Santa Catarina, um cheirinho a Paris com um toque de Londres no mais antigo de Lisboa. Sinto ainda na boca aquele irrecusável vinho tinto, que se mistura na língua com o à-vontade de quem chega a casa, num conforto de olhos semi-cerrados e narinas infladas de prazer. O espaço pede horas de tempo para estar, gentes de outras terras e partilhas de novos mundos. O sofá em que me instalo rapidamente se torna numa segunda pele que não apetecerá despir, uma camada de carícias sobre as palavras trocadas naquela sala quase vazia de outras vozes.
A ebriedade das nuvens que cobrem o Cristo Rei e calcam os diamantes da ponte acompanha-me Lisboa fora, numa distância que se sabe curta no espaço e no tempo. Amanhã, serei tua outra vez.
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